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Guia / Referência

Glossário da saboaria: INCI, CMV, markup, lote e saponificação

Toda saboaria carrega dois vocabulários: o da bancada e o da planilha. Este glossário reúne os dois, com a definição curta de cada termo e o guia que aprofunda.

Agosto de 2026 · 10 min de leitura

Trinta e um termos que aparecem na rotina de quem faz sabonete e cosmético artesanal, em ordem alfabética. Cada definição é curta de propósito, para servir de consulta rápida no meio de uma produção ou de um fechamento de mês.

A

Aparas

As pontas e sobras do bloco de sabonete que não viram barra vendável no corte. São perda de produção e entram no custo do lote, porque o insumo delas já foi pago. Medir as aparas de cada lote é a forma mais direta de acompanhar o índice de perda de uma fórmula. → Perdas e sobras no custo do lote

B

BPF (Boas Práticas de Fabricação)

O conjunto de procedimentos que garante que um cosmético seja fabricado sempre da mesma forma e com qualidade. No Brasil, estão na RDC nº 48/2013 da ANVISA, que exige procedimentos escritos, pessoal treinado, balanças calibradas, registro de cada lote, controle de rótulos, limpeza documentada e amostras de retenção. → Boas práticas de fabricação para uma pequena saboaria

C

Cinzas de soda

A camada branca e fina que às vezes se forma na superfície do sabonete curado, resultado da reação entre soda que não reagiu e o gás carbônico do ar. É cosmética, não indica erro grave, e sai com um pano úmido ou vapor. Não confundir com sabão mal saponificado, que é mole e escorregadio por dentro.

CMV (Custo da Mercadoria Vendida)

Quanto do seu faturamento já estava comprometido com insumos e embalagem antes de qualquer outra despesa. Calcula-se por estoque inicial mais compras menos estoque final. É indicador de acompanhamento mensal, não de precificação de um produto isolado. → Custo do lote: o que entra na conta

Cura

O período em que o sabonete de processo frio descansa depois de desenformado, perdendo água e completando a saponificação. A barra fica mais dura, mais duradoura e mais suave. O tempo varia com a fórmula, o desconto de água e o clima, e cada saboaria deve medir o seu acompanhando pH e peso lote a lote. → Planejamento de produção para saboarias

D

Desconto de soda

Ver Superfat.

DIP (Dossiê de Informação do Produto)

O conjunto de documentos que comprova a segurança e a qualidade de um cosmético, mantido pela empresa responsável e apresentado à fiscalização quando solicitado. É exigido mesmo para produtos Grau 1 regularizados por notificação. → Rotulagem ANVISA

E

Estabilidade

A capacidade de um cosmético manter suas características ao longo do prazo de validade. O Guia de Estabilidade de Produtos Cosméticos da ANVISA descreve três estudos encadeados: o preliminar, de cerca de 15 dias e só para triagem de fórmulas, o acelerado, de cerca de 90 dias e que estima a validade, e o teste de prateleira, que comprova o prazo estimado. → Validade de cosméticos artesanais

Estoque mínimo

A quantidade de um insumo que cobre o tempo de reposição do fornecedor. Serve para você não descobrir no meio da produção que a soda acabou. Calcula-se pelo consumo histórico e pelo prazo de entrega de cada fornecedor. → Controle de estoque para saboarias

F

Fase gel

O estágio em que o calor liberado pela saponificação faz a massa aquecer e ficar translúcida, como gel, antes de endurecer. Não é defeito: muda a cor e a textura final da barra, e muitos saboeiros a induzem de propósito. Fase gel parcial, que atinge só o miolo do bloco, deixa um anel visível no corte.

Ficha técnica

O documento que reúne a fórmula em porcentagem e em gramas, o modo de preparo com seus pontos de controle, a lista INCI, o rendimento previsto e o custo por unidade. É o que permite repetir o produto igual em qualquer lote e calcular o preço a partir do custo real. → Como fazer uma ficha técnica de cosmético artesanal

G

Giro de estoque

Quantas vezes o estoque se renovou num período. Giro alto significa menos dinheiro parado na prateleira e menor risco de vencimento. Insumo que gira devagar é candidato a compra em quantidade menor. → Controle de estoque para saboarias

Grau 1 e Grau 2

A classificação de risco dos cosméticos na regulamentação da ANVISA. O Grau 1 reúne produtos de risco mínimo, como o sabonete comum, e é regularizado por notificação. O Grau 2 reúne produtos com substâncias restritas ou indicações específicas, como antiqueda ou clareador, e exige registro. A classificação está nos anexos da RDC nº 907/2024. → Rotulagem ANVISA

I

INCI

Sigla de International Nomenclature of Cosmetic Ingredients. É o nome único e padronizado de cada ingrediente cosmético no rótulo, motivo pelo qual a água aparece como Aqua e a soda cáustica como Sodium Hydroxide. A lista vem em ordem decrescente de concentração. → INCI sem mistério

Índice de saponificação (SAP)

A quantidade de soda necessária para saponificar um grama de um óleo específico. Cada óleo tem o seu: coco fica em torno de 0,183 para NaOH, azeite de oliva em torno de 0,135. A soda total de uma receita é a soma do peso de cada óleo multiplicado pelo seu índice. O valor varia com origem, safra e refino, o que é uma das razões de existir o superfat. → Como escalar uma receita de sabonete

Índice de perda

A fração de unidades que não chegaram a produto vendável, calculada como unidades previstas menos aprovadas, dividido pelas previstas. Um lote que previa 24 barras e aprovou 21 tem índice de 12,5%. → Perdas e sobras no custo do lote

L

Lote

Uma quantidade de produto fabricada de uma vez, sob as mesmas condições, identificada por um código único. O lote é obrigatório na embalagem primária de cosméticos pelo artigo 13 da RDC nº 907/2024, e é o que liga o produto na mão do cliente às matérias-primas que entraram nele. → Códigos de lote e rastreabilidade

M

Margem de lucro

A fatia do preço de venda que sobra depois de pagar tudo: insumo, embalagem, despesas, impostos e o seu trabalho. Não confunda com markup: um markup de 100%, que dobra o custo, equivale a 50% de margem, não a 100%. → Margem de lucro na saboaria

Markup

O multiplicador aplicado sobre o custo para formar o preço de venda. A fórmula do SEBRAE para o markup multiplicador é 100 dividido por [100 − (despesas variáveis + despesas fixas + margem desejada)], todas em percentual. Preço é custo vezes markup. → Como calcular o preço do sabonete artesanal

MEI (Microempreendedor Individual)

O enquadramento empresarial mais simples do Brasil, com abertura gratuita pelo Portal do Empreendedor, limite de faturamento de R$ 81.000 por ano e um boleto mensal fixo, o DAS. Atenção: o MEI só aceita as ocupações do Anexo XI da Resolução CGSN nº 140/2018, e a fabricação de sabonete ou cosmético não consta dessa lista. Quem fabrica costuma se enquadrar como Microempresa (ME). Ser MEI também não dispensa a regularização do produto na ANVISA. → MEI e registro: como legalizar a saboaria

N

Notificação

O procedimento simplificado de regularização sanitária de cosméticos de risco mínimo, feito por comunicação prévia à ANVISA em vez de registro. Aplica-se ao sabonete comum, classificado como Grau 1. Simplificar não é dispensar: continuam valendo o rótulo conforme a norma, os ingredientes permitidos, as Boas Práticas de Fabricação e o Dossiê de Informação do Produto. → Rotulagem ANVISA

P

PEPS (Primeiro que Entra, Primeiro que Sai)

O método de controle de estoque em que o lote de insumo mais antigo é usado antes do mais novo. É o indicado para quem trabalha com validade, porque reduz perdas por vencimento e reflete melhor o custo real do que se consome. → Controle de estoque para saboarias

pH

A medida de acidez ou alcalinidade de uma solução, numa escala de 0 a 14. Sabonete artesanal é naturalmente alcalino. Acompanhar o pH ao longo da cura é uma das formas de saber se a saponificação terminou e se a barra está estável, e é um dos parâmetros físico-químicos avaliados nos estudos de estabilidade da ANVISA. → Validade de cosméticos artesanais

Ponto de pedido

O nível de estoque que dispara uma nova compra, calculado para que o insumo chegue antes de acabar. Junto com o estoque mínimo, é o que elimina a compra de emergência no meio da produção. → Controle de estoque para saboarias

Pró-labore

A remuneração do dono pelo trabalho na própria empresa. É custo de produção, não lucro, e precisa estar somado ao custo antes de aplicar markup ou margem. Dividir o pró-labore mensal pelas horas trabalhadas dá o valor da sua hora. → Mão de obra no preço do sabonete

Q

Q.s.p.

Abreviação de "quantidade suficiente para". Aparece quase sempre na água de uma fórmula cosmética e significa "complete até fechar 100%". Se os demais ingredientes somam 27,5%, a água q.s.p. 100% é 72,5%. → Converter uma fórmula de porcentagem para gramas

R

Rancificação

A oxidação dos óleos de uma barra ao longo do tempo, que produz odor desagradável e às vezes manchas alaranjadas na superfície. Óleos com alto teor de insaturados rançam mais rápido, e calor, luz e ar aceleram o processo. É um dos motivos de o estoque de insumo ser controlado por validade.

Rebatch

O reaproveitamento de sobras ou de barras reprovadas, raladas e refundidas num produto novo. Não é matéria-prima grátis: a sobra já foi paga e refazer consome o seu tempo, então o custo precisa ser transferido ou reconhecido como perda do lote original. → Perdas e sobras no custo do lote

Rendimento

Quantas unidades aprovadas um lote entregou. O rendimento previsto é a estimativa da ficha técnica; o real é o que saiu bom. A diferença entre os dois é a perda, e o custo por unidade se calcula sobre o rendimento real. → Como fazer uma ficha técnica

S

Saponificação

A reação química entre um óleo ou gordura e uma base forte, como a soda cáustica, que produz sabão e glicerina. É o que transforma óleo em sabonete. A quantidade de base necessária depende do índice de saponificação de cada óleo. → Como escalar uma receita de sabonete

Superfat

A fração de óleo deixada de propósito sem reagir com a soda, também chamada de desconto de soda, que fica livre na barra e a torna mais suave. Em sabonete de corpo trabalha-se em geral entre 5% e 8%. Aplica-se multiplicando a soda calculada pelo complemento do percentual: 5% de superfat significa multiplicar por 0,95. → Como escalar uma receita de sabonete

T

Traço

O ponto em que a mistura de óleos e soda emulsiona e fica espessa o suficiente para deixar um rastro visível na superfície quando escorre do fuê. É o momento de adicionar fragrância e corante e despejar na fôrma. Traço muito rápido reduz o tempo de trabalho e atrapalha técnicas de desenho.

Perguntas frequentes

O que é índice de saponificação?

É a quantidade de soda necessária para saponificar um grama de um óleo específico. Cada óleo tem o seu valor: o óleo de coco fica em torno de 0,183 para NaOH e o azeite de oliva em torno de 0,135. A soda total de uma receita é a soma do peso de cada óleo multiplicado pelo seu índice, com o superfat aplicado no fim. O valor varia com origem, safra e refino do óleo.

O que significa superfat na saboaria?

Superfat, também chamado de desconto de soda, é a fração de óleo deixada de propósito sem reagir com a soda, que fica livre na barra e a torna mais suave à pele. Em sabonete de corpo trabalha-se em geral entre 5% e 8%. Aplica-se multiplicando a soda calculada pelo complemento do percentual, ou seja, um superfat de 5% significa multiplicar a soda por 0,95.

Qual a diferença entre markup e margem de lucro?

Markup é o multiplicador aplicado sobre o custo para chegar ao preço de venda. Margem é a fatia do preço de venda que sobra depois de pagar tudo. São contas diferentes e não têm a mesma escala: um markup de 100%, que dobra o custo, equivale a 50% de margem, e não a 100%. Confundir os dois faz o vendedor acreditar que lucra o dobro do que lucra.

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