Como calcular a mão de obra no preço do sabonete artesanal
O seu trabalho é a linha que mais some da planilha de custo. E é justamente a que faz a saboaria fechar o mês no vermelho enquanto o papel diz que está lucrando.
Para calcular a mão de obra no preço do sabonete artesanal, divida o pró-labore que você quer receber pelo número de horas que trabalha no mês para achar o valor da sua hora, multiplique esse valor pelas horas que o lote consome e divida o resultado pelas unidades aprovadas. Mão de obra é custo de produção, e entra no custo antes da margem de lucro.
Quem não faz essa conta está subsidiando o próprio cliente.
Ache o valor da sua hora
A conta é curta:
valor da hora = pró-labore mensal desejado ÷ horas trabalhadas no mês
Se você quer tirar R$ 2.400 por mês e trabalha 8 horas por dia em 20 dias úteis, são 160 horas. O valor da sua hora é R$ 15,00.
Duas armadilhas aqui.
A primeira é definir o pró-labore pelo que sobra, não pelo que você precisa. Pró-labore é a sua remuneração pelo trabalho, e ele é custo fixo da operação. Se você define "vou tirar o que sobrar", o que sobra tende a zero.
A segunda é contar todas as horas do mês como horas produtivas. Você também compra insumo, responde cliente, tira foto de produto e vai ao contador. Se metade do seu tempo não é produção, o valor da hora produtiva precisa cobrir a outra metade. Ou você conta só as horas de bancada e divide o pró-labore por elas, o que sobe o valor da hora, ou você trata as horas administrativas como custo fixo e rateia à parte. Escolha um dos dois e não misture.
Conte o tempo que o lote consome de verdade
Aqui é onde quase toda saboaria erra para menos.
O tempo de um lote não é o tempo do fogão. É tudo o que só existe porque aquele lote existe:
| Etapa | Exemplo de tempo |
|---|---|
| Separar e pesar insumos | 20 min |
| Produzir e despejar | 40 min |
| Desenformar e cortar | 30 min |
| Embalar e rotular | 60 min |
| Total | 150 min = 2,5 h |
Repare no que ficou de fora: a cura. Um sabonete de processo frio cura por semanas, mas cura é tempo de calendário, não hora trabalhada. Você não está lá. Não entra no custo de mão de obra: entra no planejamento de produção, que é outro assunto.
Repare também no que entrou: embalar e rotular, que é a etapa mais longa da tabela e a que mais gente esquece de contabilizar.
Chegue ao custo por barra
Com o valor da hora e o tempo do lote, o resto é divisão:
mão de obra do lote = 2,5 h x R$ 15,00 = R$ 37,50
mão de obra por barra = R$ 37,50 ÷ 21 barras aprovadas = R$ 1,79 Note o denominador: barras aprovadas, não barras previstas. Se o lote previa 24 e entregou 21, o trabalho das três que foram descartadas não desapareceu. Ele se redistribui nas que sobraram. A conta completa das perdas está em como incluir perdas e sobras no custo do lote.
Escolha um critério de rateio e não troque
Quando você produz mais de um item, a mão de obra precisa ser dividida entre eles. O guia de precificação do SEBRAE usa o critério mais simples que existe: o volume de produção. Some a folha do período, veja que fatia da produção cada produto representa e divida na mesma proporção.
No exemplo do próprio guia, uma indústria de sabonete apura a mão de obra por unidade dividindo o total da folha pelo volume produzido no mês. É a mesma conta da seção anterior, com um mês no lugar de um lote.
Há critérios mais finos: ratear pelo tempo disponível de produção corrigido por um percentual de eficiência, ou pelo tempo efetivamente trabalhado contra o faturamento. Os dois pedem controle de tempo mais rigoroso do que faz sentido manter quando você é a produção inteira.
O que importa é escolher um e manter. Trocar de critério no meio do ano faz o custo por barra oscilar sem que nada tenha mudado na bancada.
Mão de obra não é lucro
Essa confusão custa caro e é comum.
Se você embutiu o seu pró-labore no custo e depois aplicou markup, o que sobra depois de tudo pago é lucro do negócio, separado do seu salário. Se você não embutiu, o que você chama de lucro é, na verdade, o seu pagamento pelas horas, e você está trabalhando de graça sem perceber.
O teste é simples: se você contratasse alguém para fazer exatamente o que você faz, quanto pagaria? Esse número precisa estar no custo antes de qualquer margem. A relação entre custo, markup e margem está em margem de lucro na saboaria.
A fórmula registra o tempo de produção junto das matérias-primas, e o custo do lote já sai com a mão de obra somada. Mudou o valor da sua hora, o custo por barra e o preço sugerido recalculam em todas as fórmulas.
Revise o valor da hora todo ano
O pró-labore que fazia sentido em janeiro passado não faz mais.
Coloque uma revisão anual no calendário: recalcule o valor da hora, confira quantas horas você realmente trabalhou por mês nos últimos meses e ajuste. Se o valor da hora subir 12% e você não repassar, a margem cai 12% naquela linha sem que nenhum insumo tenha aumentado.
E se o preço final não aceitar o valor da sua hora, o problema não é a hora. É o produto, o canal ou o tamanho do lote, porque lote maior dilui as mesmas 2,5 horas em mais barras.
Perguntas frequentes
Como calcular o valor da hora de trabalho no artesanato?
Divida o pró-labore mensal que você quer receber pelo número de horas que trabalha no mês. Quem quer tirar R$ 2.400 por mês trabalhando 8 horas por dia em 20 dias úteis, ou 160 horas, tem valor de hora de R$ 15,00. Decida antes se você conta apenas as horas de bancada, o que eleva o valor da hora, ou todas as horas do mês, tratando as administrativas como custo fixo rateado à parte.
Mão de obra entra no custo ou no lucro do sabonete?
No custo. A mão de obra, incluindo o seu próprio trabalho na forma de pró-labore, é custo de produção e precisa estar somada antes de aplicar markup ou margem. Quem deixa o próprio trabalho de fora chama de lucro aquilo que é apenas o pagamento das horas trabalhadas, e descobre no fim do mês que não sobrou nada para o negócio.
Quanto tempo de trabalho contar em um lote de sabonete?
Conte todas as etapas que só existem por causa daquele lote: separar e pesar insumos, produzir e despejar, desenformar e cortar, embalar e rotular. A embalagem costuma ser a etapa mais longa e a mais esquecida. A cura não entra, porque é tempo de calendário e não hora trabalhada. Depois divida o custo total dessas horas pelas unidades aprovadas, não pelas previstas.