Composição em português: o campo que não é o INCI
É o campo mais recente do rótulo e o que mais gente esquece, porque parece repetição da lista INCI. Não é. São duas exigências separadas, e faltar uma é rótulo irregular.
A composição em português é um campo obrigatório do rótulo, distinto da lista INCI. Ela vem da RDC nº 898/2024 da ANVISA, usa a frase padronizada "Composição (português):" ou "Ingredientes (português):", e pode ser impressa na embalagem ou disponibilizada por QR code.
Quem monta rótulo há mais tempo tende a tratar o assunto como detalhe. Ele não é: o rótulo com INCI e sem composição em português está incompleto do mesmo jeito que estaria sem o número de lote.
Por que existem os dois campos
Cada um resolve um problema diferente.
O INCI é técnico e internacional. Butyrospermum Parkii Butter significa a mesma coisa em qualquer país, para qualquer autoridade sanitária e para qualquer médico. É o campo que serve à fiscalização, ao dermatologista e a quem tem alergia conhecida a um ingrediente específico.
A composição em português é para o cliente. A pessoa na feira que quer saber se tem óleo de coco não vai decifrar Cocos Nucifera Oil, e a lei brasileira parte do princípio de que informação de produto tem que estar em português.
Traduzir não é redundância. É a diferença entre um rótulo que cumpre a norma e um rótulo que também comunica.
O que a RDC 898/2024 pede
- Mantém o INCI obrigatório para todos os ingredientes. A composição em português é adicional, nunca substitutiva;
- Exige a frase padronizada: "Composição (português):" ou "Ingredientes (português):". Não é livre. Usar "Contém:" ou "Feito com:" no lugar não cumpre o campo;
- Admite duas formas de apresentação: impressa na embalagem ou no rótulo, ou disponibilizada por QR code ou link digital;
- Vale de forma ampla para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes. Não é exceção para uma categoria específica.
A exigência não nasceu em 2024. Nas perguntas e respostas da própria RDC nº 898/2024, a ANVISA afirma que os produtos fabricados a partir de 1º de novembro de 2023 já devem trazer a composição em português, e que só os fabricados até 31/10/2023 podem ser vendidos sem ela, até o fim da validade. Não há prazo aberto de esgotamento de rotulagem para quem começa agora.
Um exemplo completo
Um sabonete de lavanda com óleo de coco, azeite e karité, colorido com óxido de ferro. Os dois campos, lado a lado:
| INCI | Composição em português |
|---|---|
| Sodium Cocoate | Cocoato de sódio (sabão de óleo de coco) |
| Sodium Olivate | Olivato de sódio (sabão de azeite de oliva) |
| Aqua | Água |
| Butyrospermum Parkii Butter | Manteiga de karité |
| Glycerin | Glicerina |
| Lavandula Angustifolia Oil | Óleo essencial de lavanda |
| Linalool | Linalol |
| CI 77492 | Óxido de ferro amarelo |
As traduções acima são ilustrativas. Confira cada uma no Painel de Tradução INCI antes de imprimir, porque o painel é a referência oficial e ele muda.
Repare em três decisões desse exemplo:
- A ordem é a mesma nos dois campos. A norma ordena o INCI por concentração decrescente. Manter a composição em português na mesma sequência evita que um cliente atento ache que são listas diferentes;
- O parêntese explica sem substituir. "Cocoato de sódio" é a tradução correta e ninguém entende. "Sabão de óleo de coco" entre parênteses resolve, sem trocar o termo técnico pelo apelido;
- O código de cor não vira poesia. CI 77492 é óxido de ferro amarelo. Não é "pigmento natural da terra".
A armadilha do sabão saponificado
Esta é específica de saboaria e vale por si só.
Em sabão feito a frio, os óleos reagem com a soda e viram outra coisa. Existem duas formas aceitas de declarar isso, e a escolha é sua:
- Declarar o produto da reação: Sodium Cocoate, Sodium Olivate, Sodium Shea Butterate. Você lista os sabões formados, e a soda não aparece, porque ela foi consumida;
- Declarar os reagentes: Cocos Nucifera Oil, Olea Europaea Fruit Oil, Sodium Hydroxide, Aqua. Você lista o que entrou na panela, incluindo o hidróxido de sódio.
As duas convenções são prática internacional consolidada de rotulagem de sabão, não texto da RDC nº 907/2024. O erro comum é misturar as duas: listar Sodium Cocoate e Sodium Hydroxide na mesma lista. Isso descreve um sabão que ainda tem soda livre, o que é exatamente o que você não quer declarar. Escolha uma convenção, aplique em todos os produtos e registre a escolha na ficha técnica.
Confirme a convenção com o seu responsável técnico antes de imprimir. É o tipo de decisão que ele existe para tomar.
Impresso ou QR code?
Em sabonete artesanal, o argumento a favor do QR code é o espaço. Uma barra de 90 g embrulhada em papel kraft não tem área para duas listas de ingredientes em corpo legível.
Se você for por esse caminho, três cuidados:
- O link precisa abrir direto na informação. Sem login, sem cadastro, sem baixar aplicativo, sem página inicial da loja com a composição escondida em três cliques;
- O endereço precisa sobreviver ao produto. Se você trocar de plataforma de loja e o link morrer, os rótulos já impressos ficam irregulares. Use um endereço que você controla;
- Cada fórmula tem o seu link. Um QR code genérico apontando para "nossos ingredientes" não cumpre a exigência, porque a composição é do produto, não da marca.
Meu palpite prático: imprima quando couber, e use QR code só quando a embalagem realmente não permitir. Papel impresso não sai do ar.
Cada matéria-prima guarda o nome INCI junto do nome comercial. Com a fórmula fechada, a lista sai na ordem da concentração e a tradução fica registrada na mesma ficha, então a composição em português não precisa ser reescrita a cada lote.
Como montar a sua tabela de tradução
Comece pelo Painel de Tradução INCI, a referência oficial que a ANVISA publica e atualiza. A tradução que o painel traz é a que vale. Este campo não é de escrita livre, e é aqui que a maior parte dos rótulos artesanais erra.
Faça a tabela uma vez, use para sempre. Uma coluna com o nome comercial do insumo, uma com o INCI da ficha do fornecedor e uma com a tradução do painel. Toda vez que entrar matéria-prima nova, a linha é preenchida na entrada, não na hora do rótulo.
Quando o ingrediente não estiver no painel, a ANVISA orienta pedir a inclusão pelo formulário dela e seguir com tradução própria enquanto isso. Nesse caso, registre na ficha técnica qual tradução você usou. Se o painel publicar depois uma tradução diferente, o prazo para esgotar a rotulagem antiga é de até 36 meses, contado da inclusão no painel.
Anote também a data em que você consultou o painel. Ele muda, e saber qual versão embasou o rótulo é o que permite responder à fiscalização sem refazer a pesquisa inteira.
Erros que aparecem em rótulo real
- Trazer só o INCI, porque "ninguém fiscaliza artesanal";
- Trazer só o português, achando que traduzir dispensa o INCI;
- Trocar a frase padronizada por "Ingredientes:" sem o "(português)";
- Traduzir por conta própria sem abrir o Painel de Tradução INCI;
- Traduzir por aproximação de marketing, como chamar CI 77491 de "argila vermelha";
- Mudar a fórmula e atualizar só o INCI, deixando a tradução do lote anterior.
A montagem da lista INCI, que alimenta tudo isso, está em INCI sem mistério. Os demais campos obrigatórios ficam em rotulagem ANVISA.
Este guia é informativo e foi verificado em 24 de agosto de 2026. A Lei nº 15.154/2025 prevê rotulagem simplificada para cosmético artesanal, mas depende de um regulamento da ANVISA que não havia sido publicado até essa data, e sem ele a isenção não tem via procedimental própria. Confirme o texto vigente da RDC nº 898/2024 e peça a revisão do seu responsável técnico antes de imprimir rótulo.
Perguntas frequentes
A composição em português substitui a lista INCI?
Não. São dois campos obrigatórios e independentes. A ANVISA mantém a nomenclatura INCI para todos os ingredientes e, desde a RDC nº 898/2024, exige também a composição em português na maioria dos produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes. Um rótulo com apenas um dos dois está incompleto.
Como escrever a composição em português no rótulo?
Use a frase padronizada "Composição (português):" ou "Ingredientes (português):" e liste os ingredientes traduzidos, na mesma ordem da lista INCI. A tradução de cada ingrediente sai do Painel de Tradução INCI da ANVISA, não da sua escolha. A informação pode ser impressa na embalagem ou disponibilizada por QR code ou link digital, o que resolve o problema de espaço em rótulo pequeno.
Posso usar QR code para a composição em português?
Pode. A RDC nº 898/2024 admite que a composição em português seja disponibilizada por QR code ou link digital, em vez de impressa. Se você escolher esse caminho, garanta que o link abra direto na informação, sem login, sem cadastro e sem exigir aplicativo, e mantenha o endereço estável enquanto o produto estiver no mercado.
Existe uma tradução oficial para cada nome INCI?
Existe uma referência oficial: o Painel de Tradução INCI, que a ANVISA publica e atualiza. Consulte o painel primeiro e use a tradução que ele traz. Se o ingrediente não estiver lá, a ANVISA orienta pedir a inclusão pelo formulário dela e seguir com tradução própria enquanto isso. Se o painel publicar depois uma tradução diferente da sua, o prazo para esgotar a rotulagem antiga é de até 36 meses, contado da inclusão no painel.
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Fontes
- ANVISA: RDC nº 898, de 28/08/2024 (composição em português na rotulagem)
- ANVISA: Painel de Tradução INCI (referência oficial de tradução dos ingredientes)
- ANVISA: RDC nº 907, de 19/09/2024 (rotulagem, embalagem e regularização de cosméticos)
- ANVISA: perguntas frequentes sobre cosméticos
- Planalto: Lei nº 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor, informação em língua portuguesa)