Fluxo de caixa para saboaria: entradas, saídas e lucro
Dá para ter lucro no mês e não ter dinheiro na conta. Acontece toda hora na saboaria, e o fluxo de caixa é o único instrumento que mostra isso antes do susto.
Fluxo de caixa é o registro de todas as entradas e saídas de dinheiro da saboaria, organizadas por data, com o saldo acumulado. A cartilha de fluxo de caixa do SEBRAE o define como um relatório gerencial que informa toda a movimentação de dinheiro num período determinado, e diz que a utilidade dele é mostrar a sobra ou a falta de caixa antes mesmo que ela aconteça. Ele responde uma pergunta que o lucro não responde: você tem dinheiro na conta na semana que vem?
Vender bem e quebrar por falta de caixa é uma combinação mais comum do que parece.
O que entra e o que sai
A cartilha resume o princípio numa frase: toda ação realizada por uma empresa se resume a entrada ou saída de dinheiro. E lista, do lado das saídas, pagamento de fornecedor, pró-labore, aluguel, imposto, folha, água, luz e telefone.
Na saboaria, a lista fica assim:
Entradas
- Vendas à vista, na feira ou na loja
- Recebimento de vendas a prazo, na data em que o dinheiro cai
- Repasse de marketplace, já descontada a comissão, na data do repasse
- Sinal de encomenda
- Venda de equipamento que você não usa mais.
Saídas
- Compra de matéria-prima e embalagem
- Pró-labore
- Aluguel, energia, gás, água, internet
- Taxa de maquininha, frete, comissão de feira
- DAS do MEI ou imposto do Simples
- Contador
- Compra de equipamento.
Repare que o pró-labore está nas saídas. Ele é pagamento, como qualquer outro. Tirar dinheiro da conta sem lançar é o jeito mais rápido de transformar o fluxo de caixa em ficção.
Regime de caixa e regime de competência
Essa distinção é a que separa um controle útil de um controle enganoso.
Regime de caixa registra na data em que o dinheiro se move. Regime de competência registra na data em que o fato acontece, independentemente do pagamento.
Um exemplo que a saboaria vive todo fim de ano: você fecha uma venda de 200 barras em 20 de novembro, com pagamento em 10 de janeiro. Pela competência, a receita é de novembro. Pelo caixa, ela é de janeiro. Se você comprou o insumo em novembro, pagou o insumo em novembro e comemorou a receita em novembro, dezembro chega com a conta vazia e a venda feita.
A posição que eu defendo: use caixa para sobreviver e competência para precificar.
O fluxo de caixa cuida de quando o dinheiro entra e sai, e é ele que diz se você aguenta comprar insumo agora. O custo do produto e a margem se calculam por competência, porque o que importa ali é o que aquele lote consumiu, não quando a nota foi paga. Misturar os dois produz preço errado e susto no banco.
Monte o seu
A cartilha do SEBRAE usa um modelo semanal só para demonstrar, e recomenda o período diário para o registro de verdade. A estrutura mínima é curta:
| Data | Descrição | Entrada | Saída | Saldo |
|---|---|---|---|---|
| 03/03 | Saldo anterior | R$ 1.240,00 | ||
| 04/03 | Compra de óleo de coco | R$ 380,00 | R$ 860,00 | |
| 06/03 | Feira do centro | R$ 720,00 | R$ 1.580,00 | |
| 08/03 | DAS MEI | R$ 85,00 | R$ 1.495,00 | |
| 10/03 | Repasse marketplace | R$ 412,00 | R$ 1.907,00 |
Três regras que fazem esse controle durar mais de dois meses:
- Lance todo dia, nem que seja no fim do dia. Fluxo de caixa preenchido de memória no fim do mês não vale o papel
- Separe conta pessoal de conta do negócio. Se o dinheiro está misturado, não existe fluxo de caixa possível. Essa é a mudança que mais melhora o controle de uma saboaria pequena, e custa zero
- Registre pelo valor líquido do canal. O marketplace repassa R$ 412,00 e não os R$ 500,00 da venda. Lançar os R$ 500,00 e esquecer a comissão infla a entrada.
Projete, não só registre
A cartilha do SEBRAE é clara nesse ponto: projetar recebimentos e pagamentos a partir do que você já viu acontecer e do que espera do mercado é o que permite se preparar para a dificuldade antes de ela chegar.
Projetar numa saboaria é mais fácil do que parece, porque quase tudo é previsível. Você sabe a data do DAS, a data do aluguel, quando a feira acontece e quanto costuma vender nela. O que varia é a compra de insumo e a venda a prazo.
Projete quatro semanas à frente, com uma linha por semana. Se em alguma semana o saldo projetado ficar negativo, você tem semanas de antecedência para agir: antecipar uma cobrança, adiar uma compra ou parcelar um insumo. Descobrir isso no dia é descobrir tarde.
Lucro não é saldo
Vale insistir, porque essa é a confusão que derruba negócio saudável.
Lucro é o que sobra da receita depois de todos os custos e despesas do período. Saldo é o dinheiro que está na conta hoje. Os dois andam em ritmos diferentes por três motivos:
- Prazo de recebimento. Você já vendeu, mas o dinheiro entra em 30 dias
- Compra de estoque. Comprar 20 kg de óleo derruba o saldo e não muda o lucro, porque o óleo virou estoque, não despesa
- Investimento. Uma balança nova sai do caixa de uma vez e se dilui no resultado ao longo do tempo.
Uma saboaria lucrativa que compra insumo demais de uma vez fica sem caixa. Isso não é falta de lucro, é falta de capital de giro. A relação entre estoque parado e dinheiro parado está em controle de estoque para saboarias.
As vendas registradas alimentam a visão financeira do período, junto com o custo dos lotes produzidos. Dá para ver o que entrou, o que saiu em matéria-prima e quanto de margem cada venda deixou, sem transportar número para outra planilha.
Perguntas frequentes
O que é fluxo de caixa e para que serve numa saboaria?
Fluxo de caixa é o registro das entradas e saídas de dinheiro por data, com saldo acumulado. A cartilha do SEBRAE o define como um relatório gerencial que informa toda a movimentação de dinheiro num período determinado, e recomenda projetar recebimentos e pagamentos futuros em vez de só registrar o passado. Numa saboaria, ele responde se há dinheiro para comprar insumo na semana que vem, pergunta que o cálculo de lucro não responde.
Qual a diferença entre regime de caixa e regime de competência?
O regime de caixa registra na data em que o dinheiro efetivamente entra ou sai. O regime de competência registra na data em que o fato acontece, independentemente do pagamento. Uma venda fechada em novembro com pagamento em janeiro é receita de novembro pela competência e de janeiro pelo caixa. Use caixa para gerir o dia a dia e competência para calcular custo e margem dos produtos.
Por que tenho lucro mas não tenho dinheiro na conta?
Por três motivos que separam lucro de saldo. Vendas a prazo já entraram no lucro mas ainda não entraram na conta. Compras de estoque saíram da conta mas não viraram despesa, porque o insumo continua sendo seu. E investimentos, como uma balança nova, saem do caixa de uma vez e se diluem no resultado ao longo do tempo. Essa diferença é falta de capital de giro, não falta de lucro.